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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Com dívida de mais de US$ 14 tri, os EUA lutam para superar crise de 2008

G1 - 15/09/2011 10h26 - Atualizado em 15/09/2011 

Políticas monetária e fiscal para reanimar economia aumentaram déficit.
Para analistas, cenário atual é de desaceleração do crescimento.

Roberto Padovani, da Votorantim Corretora (Foto: Divulgação)Roberto Padovani, da Votorantim Corretora, diz que
o 'crescimento será baixo durante algum tempo'
(Foto: Divulgação)
 
Há pouco mais de um mês, os Estados Unidos protagonizaram uma disputa com fortes contornos políticos para aumentar o limite da dívida pública do país, cujo teto era US$ 14,3 trilhões, valor alcançado em maio deste ano. O problema, portanto, parece bastante atual, mas, na verdade, tem suas raízes fincadas, em boa parte, na crise financeira disparada em 2008 – e que foi marcada pela quebra, há exatos três anos, do banco de investimentos Lehman Brothers.
Quem admite isso, inclusive, é o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Ben Bernanke, que declarou, após reunião do BC em Jackson Hole, Wyoming, no último dia 26, que, durante a crise financeira que tomou conta dos mercados globais em 2008 e 2009, “os governos e bancos centrais trabalharam com força e em estreita coordenação para evitar o colapso iminente”. “As ações para estabilizar o sistema financeiro foram acompanhadas, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior, pelo estímulo monetário e fiscal substancial”, disse.
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Origem da crise nos EUA
“Depois da crise de 2008, que foi uma crise bancária nos Estados Unidos, de qualidade de crédito nos bancos, os governos foram obrigados a usar política econômica – monetária e fiscal –, para atenuar os efeitos da crise”, explica Roberto Padovani, economista-chefe da Votorantim Corretora.
De maneira geral, os governos agiram nas duas frentes e adotaram medidas como o corte das taxas de juros, aumento de impostos e “injeção” de liquidez nos mercados.
Segundo Padovani, é consenso entre os economistas que a política econômica teve efeito positivo e de fato evitou uma retração mais profunda ou prolongada. No entanto, ela trouxe efeitos colaterais.
“No caso fiscal, aumentou muito o endividamento dos governos e, dada a trajetória acentuada de piora das dívidas, gerou dois tipos de dúvidas: a primeira é saber se os governos terão capacidade financeira e política para pagar a dívida. Essa dívida tem implicação direta com crise bancária – a maior parte dos bancos carrega títulos públicos; diante de uma piora destes títulos, acaba comprometendo a qualidade desses ativos; se piora a qualidade da sua carteira, vai ter menos capacidade de dar crédito – menor crescimento do crédito e menor crescimento econômico”, traduz Padovani.
Foi um esforço muito grande para que a economia não entrasse numa recessão muito forte, mantendo taxas de juros muito baixas e jogando dinheiro na economia através de gastos públicos"
Cristiano M. Costa,  professor associado da Fucape
A segunda dúvida, segundo ele, é com relação à solvência bancária. “Isso pode ser muito grave. Se houver corrida bancária pode destruir qualquer banco, esteja ele bem ou não.”
Na área monetária, Padovani lembra que também houve uma “ação agressiva”. “Os governos cortaram taxa de juros, houve injeção de liquidez. O aumento de liquidez gerou bolhas, que é esperado que aconteça. O que estamos vendo hoje é um ajustamento de preços de ativos”, fala.
O francês Michel Fleuriet, professor de Finanças da Fundação Dom Cabral, diz que é importante reforçar que a crise atual não é um problema de apoio aos bancos, como acreditam alguns. "Não é um problema de que os bancos ainda devam dinheiro para o governo norte-americano, mas um problema de que a crise começou nos Estados Unidos por causa do sobre-endividamento dos americanos, que vivem além dos seus ingressos”, diz.
O financista lembra que, até bem pouco tempo, a taxa de poupança dos norte-americanos era negativa em 8%. “Depois da crise, passaram a poupar 4% a 5%, portanto, foram 12% de consumo a menos em um curto espaço de tempo. É bem óbvio que a crise de 2008 gerou a crise de demanda nos Estados Unidos”, fala.
Portanto, para Fleuriet, parte do problema do excessivo endividamento dos Estados Unidos veio da tentativa do governo de reanimar a economia local.
Para Eliana Cardoso, professora de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a dívida fiscal nos Estados Unidos cresce por causa da recessão. “Parte do crescimento [da dívida pública] é fruto da recessão, parte é fruto da guerra, parte de políticas fiscais anteriores que reduziram impostos, parte é estrutural e vai ter que ser corrigida no futuro, porque os programas de saúde não são sustentáveis”, resume.
Cristiano M. Costa, Ph.D. em Economia pela Universidade da Pensilvânia e professor associado da Fucape Business School, lembra que a crise de 2008 teve origem no mercado da construção civil e, posteriormente, alastrou-se por toda a economia.
O presidente do Fed, Ben Bernanke, durante audiência no Senado nesta quinta-feira (14) (Foto: Reuters)Ben Bernanke, presidente do Fed, falou sobre o
'estímulo monetário e fiscal substancial' para evitar
colapso (Foto: Reuters)
 
“O setor de construção parou, gerou mudança na economia, propagou este efeito. Começou com uma crise que era de crédito, os bancos começaram a quebrar. Quando o crédito encolheu, as pessoas pararam de consumir”, sintetiza.
Naquele momento, destaca Costa, o governo norte-americano veio em socorro dos bancos, mas também deu início a diversos programas de incentivo. Com o investimento e o consumo em queda livre, o governo decidiu aumentar os gastos públicos.
“Foi um esforço muito grande para que a economia não entrasse numa recessão muito forte, mantendo taxas de juros muito baixas e jogando dinheiro na economia através de gastos públicos”, fala.
De maneira sintética, o aumento da dívida pública se reflete em “reduzir o consumo do seu filho, do seu neto, para gastar hoje”.
Europa
O endividamento dos governos também é uma realidade entre vários países europeus, especialmente aqueles conhecidos pela sigla PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). Mas, embora o problema seja semelhante ao dos EUA, a razão para o alto déficit é distinta, conforme explicam os analistas ouvidos pelo G1.
A Europa tem que encontrar uma maneira de resolver o modelo social"
Michel Fleuriet, professor da Fundação Dom Cabral
"No caso da Europa, você tinha problemas que, em algum momento, iam estourar. Você tem uma moeda comum numa região que não é uma área ótima. A moeda que serve a Alemanha não é a mesma que serve a Grécia. No momento que tem desequilíbrios fiscais e não tem um governo comum, como vai fazer? A grande incerteza hoje é o que vai acontecer com esses bancos europeus”, pontua Eliana, da FGV.
No caso da Irlanda, explica a professora, o problema fiscal teve origem na especulação, seguida da medida do governo de assumir dívidas privadas. “Quando teve a especulação imobiliária, os bancos assumindo dívida, perigo da quebra desses bancos e o governo irlandês interferindo numa operação de salvamento e assumindo dívidas que eram do setor privado”, resume.
Quanto à Grécia, o problema fiscal vem dos gastos correntes do governo e compromissos com programas sociais, previdência, “que geram um crescimento astronômico da dívida, que não é derivado apenas da crise”, diz Eliana.
“A crise que temos na Europa é uma crise da dívida dos estados, já começou há muito tempo, na Itália, França, Espanha, na própria Grécia. (...) A dívida dos estados é resultado de programas de assistência social e do custo da dívida anterior, que está crescendo mais do que o PIB”, argumenta Fleuriet, da Dom Cabral.
“Vamos enfrentar uma crise grave na Europa, que é uma crise do problema social. A Europa tem que encontrar uma maneira de resolver o modelo social. É um problema estrutural, com um problema de demografia. A França é o único país que está crescendo em termos demográficos. Na Itália, não tem taxa de renovação, a população da Alemanha está decrescendo de maneira rápida. Temos, portanto, um problema estrutural muito grande”, alerta o francês.
Para Padovani, “o problema da Grécia apareceu como desdobramento da crise de 2008, mas não se resume a isso – o problema fiscal grego já existia”. “Houve uma crise importante que gerou impactos relevantes atuais, mas a crise de 2008 e os impactos posteriores acontecem a partir de uma situação pré-existente”, diz.
“No caso dos países europeus, há muitas benesses, vantagens sociais que, com o envelhecimento da sociedade, foram ficando muito caros. Gastos com saúde, com aposentadoria. A sociedade europeia se tornou uma sociedade em que se gasta muito com assistência social”, reforça Costa, da Fucape.
Cenário atual
Para Padovani, o cenário atual é de “longa e lenta recuperação”. “A recuperação existe, mas é lenta. A realidade é medíocre e o crescimento será baixo durante algum tempo”, analisa.
Tudo isso é reflexo, em grande parte, da política fiscal dos governos. “A política fiscal evitou uma queda maior naquele momento [2008], mas ela rouba crescimento futuro. Você aumentou gastos naquele momento -- e foi importante para evitar retração mais profunda, mas como terá que fazer este ajuste sobre dívida no futuro, está roubando crescimento agora”, diz o economista-chefe da Votorantim Corretora.
Na visão do analista, na Europa, a política fiscal suavizou impactos, “mas roubou condições de crescimento nos próximos anos”. “Agora tem que aumentar impostos e cortar gastos – quando faz isso está evitando uma recuperação mais rápida. A política fiscal suaviza – tanto uma queda mais bruta, quanto uma recuperação mais rápida.”
Cristiano M. Costa defende que os dados apontam que vai ocorrer uma redução da taxa de crescimento. “O consumo do americano já vem caindo. (...) A questão é saber se vamos de fato entrar numa recessão, porque, tecnicamente, só caracteriza recessão após três períodos de queda do PIB”, explica. “Pelos menos nos próximos nove meses, estamos fadados a este crescimento pífio.”
Embora não seja economista, Michel Fleuriet acredita que a economia mundial não está, necessariamente, em crise, mas sim, enfrentado uma situação de “desaceleração do crescimento”.
Alternativas
Na opinião de Roberto Padovani, as famílias e os governos vão ter que poupar para pagar suas dívidas. “Quando poupa, para de consumir. Esta crise de 2008 exigirá um esforço muito grande para pagamento de dívidas.”
Ele destaca ainda que, atualmente, uma das preocupações é que os instrumentos à disposição dos governos são bem mais limitados. “No caso dos Estados Unidos, dificilmente vão ampliar gastos e os juros já são zero. (...) Se tiver algum problema, a capacidade de reação será menor.”
Para Costa, “uma maneira de recuperar a economia seria permitir que tivesse um pouco mais de inflação nos Estados Unidos”. “Enquanto os preços não forem para os lugares corretos, a economia não vai voltar a crescer. A única forma de fazer a economia andar é os preços caírem. Mas, em economia, é muito difícil ver os salários caindo. Então, a única forma de ver os salários caindo seria a inflação.”
Michel Fleuriet acredita que “o melhor para reanimar a economia dos Estados Unidos são medidas de investimento em infraestrutura, em educação. Não pode reanimar a demanda, senão, os norte-americanos vão novamente pegar empréstimos para consumir e se endividar”.
BrasilNeste contexto todo, o Brasil está bem, acredita Padovani. “A economia brasileira é bem menos integrada do ponto de vista comercial do que outras economias; dependemos menos do humor externo; o sistema bancário brasileiro é sólido e fundamentalmente nacional; mantém sua capacidade de dar crédito, o que mantém o consumo, que é aproximadamente 60% do PIB”, cita o analista.
“O lado bom é que estamos nos valendo da dificuldade alheia para permanecer com investimento relativamente bom. Mas o cenário gera complacência local, as pessoas ficam menos preocupadas com as restrições locais, o que aumenta o risco a médio e longo prazo”, alerta.
“É preciso ter cautela no otimismo, e é preciso ter cautela no pessimismo”, resume Padovani.
Embora acredite que os países emergentes vão “continuar carregando a economia nas costas”, o professor da Fucape alerta que há “um otimismo exacerbado”.
“O Brasil vai continuar crescendo acima de 1,5%, 2%, mas menos do que o esperado. Esta crise não estava nos planos do Brasil”, resume.

Em três anos, mais de 380 bancos quebraram nos EUA, segundo FDIC

G1- 15/09/2011 - Atualizado em 15/09/2011 

Consequências não foram graves por serem bancos comerciais regionais.


Nos EUA, há cerca de 6.500 bancos; no Brasil, número não chega a 160.

 
Bancos falidos nos EUA entre 2001 e 2011 (Foto: Editoria de Arte/G1)
Nos últimos três anos, desde a quebra do Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, mais de 380 bancos comerciais fecharam as portas nos Estados Unidos – sem que isso tenha causado qualquer abalo à economia mundial. Os dados são do Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), órgão do governo norte-americano cuja atuação é similar à do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) no Brasil, oferecendo garantias aos investidores.
Um dos motivos para tamanha diferença entre as consequências da quebra do Lehman Brothers e dessas mais de 380 instituições é o tipo do banco. O Lehman Brothers era um banco de investimentos; já a lista do FDIC refere-se apenas a bancos comerciais, que, nos Estados Unidos, têm forte vocação regional.
BankUnited faliu em 2009 (Foto: AFP)Em 2009, 140 bancos faliram nos EUA, entre eles o
BankUnited (Foto: AFP)
“Quando um banco de investimento quebra, uma vantagem é que não tem correntista, não tem aquela ideia da fila de pessoas na porta do banco querendo sacar o dinheiro. Mas o problema do banco de investimento é que como não tem esse tipo de captação [dinheiro de correntistas], a forma de captar recursos é através de operações compromissadas – tem muito mais interligações, muito mais contrapartes que o banco comercial”, explica Luis Otávio Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil.
“O Lehman Brothers era o quinto maior banco de investimentos dos Estados Unidos. As operações estavam alavancadas em 50 vezes (o que significa que o banco devia 50 vezes o que valia). É como um castelo de cartas – cada carta deste castelo era uma operação que estava ligada a outra instituição financeira, e numa escala global. O Lehman tinha uma interligação de operações monstruosa e global.”
Diferenças
A falência de quase quatro centenas de bancos nos Estados Unidos no curto espaço de tempo de três anos pode causar espanto aos brasileiros, mas não chega a ser motivo de insônia para os norte-americanos. Isso porque os sistemas bancários dos Estados Unidos e do Brasil têm profundas diferenças.
O Lehman Brothers era o quinto maior banco de investimentos dos Estados Unidos. Ele tinha uma interligação de operações monstruosa e global"
Luis Otávio Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil
Atualmente, existem cerca de 6.500 bancos comerciais nos Estados Unidos. No Brasil, eles não chegam a 160. “O sistema bancário brasileiro é muito mais concentrado que o americano”, destaca Leal.
Nos Estados Unidos, a maior parte dos bancos tem atuação regional. “Existem 865 bancos com problemas, que podem falir a qualquer momento. Toda semana, tem dois ou três bancos quebrando. É um processo de seleção natural lá.”
O economista-chefe do ABC Brasil lembra que, mesmo nos momentos em que não havia crise, cerca de 50 a 60 bancos se viam às voltas com problemas internos. “Obviamente que a proporção cresceu após a crise, mas esse processo não é algo que nos Estados Unidos tenha um apelo tão grande quanto no Brasil.”
Ricardo Mollo, professor de Finanças do Insper, diz que em 1990, havia 12.300 bancos comerciais nos Estados Unidos, praticamente o dobro do número atual. “Na década de 90 já veio havendo uma consolidação.” O mesmo fenômeno ocorreu no Brasil. “Em 1999, tínhamos 193 bancos no país. Em 2010, eram 159.”
Mollo destaca mais uma diferença entre os sistemas bancários dos dois países: a concentração de ativos, que, no Brasil, segundo ele, é “enorme”. “Em 2009, os dez principais bancos tinham 80% dos ativos de crédito. Os bancos no Brasil são muito importantes, com atuação nacional.”
Por isso, a falência de mais de 380 bancos nos Estados Unidos pode não ser considerada tão grave. “A quantidade parece muito grande, mas se for pegar a quantidade de ativos não é tão significante assim, não é nada relevante”, diz o professor do Insper.
FDIC decretou a falência do Greater Atlantic Bank em 2009 (Foto: AFP)O Greater Atlantic Bank fechou as portas em
dezembro de 2009 (Foto: AFP)
Consolidação
Para Mollo, a consolidação do sistema bancário é uma tendência mundial. “Na Inglaterra, tem quatro grandes bancos; na Itália, tem três; e, na Alemanha, há dez bancos, mas alguns são estatais que estão quebrando.”
Mas o fenômeno traz seus riscos. “Diminuindo a competição pode ser que as taxas fiquem altas. No Brasil, o mercado ainda é muito competitivo, apesar de dez bancos concentrarem as operações”, fala Mollo.
“Nos Estados Unidos, por ser uma economia muito maior, mais pujante, naturalmente o sistema bancário acabou ficando maior”, fala Leal, do ABC Brasil. Para ele, a forte presença de bancos estatais, como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil, além de instituições como o Banco do Nordeste, da Amazônia, por exemplo, “pode ter inibido um desenvolvimento maior do sistema”. “No Brasil, o sistema era muito estatizado até bem pouco tempo atrás”, diz.
Prós e contrasPara Leal, um sistema bancário com muitas instituições faz com que o mercado financeiro seja mais desenvolvido. “Tem muito mais opção de investimento”, diz.
Para o economista-chefe do ABC, mais do que o fato de ter menos instituições financeiras, o que faz o sistema brasileiro ser mais seguro e estável é a “supervisão bancária considerada padrão para o mundo”.
Ricardo Mollo, do Insper, também acredita que os bancos brasileiros “são mais rigorosos”. “Nossos bancos sabem dar crédito, as carteiras de crédito são bastante saudáveis. É uma diferença bastante relevante ao que acontece nos Estados Unidos e na Europa.”